domingo, 5 de dezembro de 2010

Vida de Cachorro (crônica da vida canina)




dogdays

Vida de cachorro, é fogo. Passa horas se coçando sem parar. Coça as costas, coça o pescoço. Coça as orelhas e, quando as pulgas finalmente resolvem dar um tempo, o pobre animal consegue finalmente dormir uns cinco minutos antes que apareça o primeiro mosquito pentelho para chatear. Então é hora de passar uma eternidade abocanhando o ar até que, num golpe de sorte, consiga acertar o desgraçado ou até que este se canse do ambiente e da companhia, e vá azucrinar em outras bandas.

Depois de toda essa guerra, o sonolento cão vai poder tirar um cochilo. Mas aí vem aquele ronco que não sai da garganta e sim do mais profundo buraco do estomago vazio: fome.

Com uma humildade de causar pena, o vira-lata se encaminha sorumbático até a tigela, onde na lateral se pode ler Rex – ou Totó ou qualquer outra alcunha ridícula pela qual o canino é obrigado a atender –, para encarar o próprio focinho refletido no fundo, sem nenhuma migalha. Mas o bicho é paciente, com aqueles olhinhos tristes se arrasta até a porta da cozinha e lá permanece sentado, esperando um rango que tanto demora a vir. Ao mínimo ruído levanta as orelhas, tomba a cabeça para o lado, solta um gemido, abana o rabo até perceber que era só alguém que havia ido à cozinha beber água ou lavar a louça. Desiludido, volta a esperar calado como uma estátua de pelos e pulgas.

Quando, enfim, alguma alma nobre se lembra de sua quase insignificante existência e vem lhe trazer algum agrado, o infeliz canino já está quase juntando os olhinhos e caindo com as perninhas para cima, mas, mesmo assim, faz a maior festa. Abana o rabo, pula, lambe os pés de seu dono e só quando este sai é que ele cai de boca na tigela engolindo tudo que está dentro sem nem ao menos ter o trabalho de mastigar.

Barriga cheia, vai finalmente poder dormir. Feliz da vida segue aos saltos rumo à estreita casinha de madeira no fundo do quintal. Dormiria até o mundo acabar se antes não tivesse visto andando no muro aquele gato preto do vizinho com aquele rabo apontado para o céu e cara de folgado. Agora são duas horas latindo, mesmo quando o gato cor de carvão há muito já virou fumaça ao dar com os olhos naqueles dentes afiados e bafo de boca-de-lobo.

Vida de gato é bem mais fácil: passa o dia inteiro dormindo no sofá da sala e quando sente fome, tem sempre um pires cheio de leite e seu prato cheio de ração fresquinha à sua espera – é só ir lá e se empanturrar. Nada de ficar esperando, nada de dormir espremido em casinha de madeira com chão duro e sem cobertor no frio do fundo do quintal, nada de mosquito infernizando, nem de pulga mordendo onde a unha não alcança… Deve ser por isso que cachorro não gosta de gato, rola sempre aquela inveja do bichano todo paparicado que, com o cão, só compartilha mesmo o fato de também ser sempre batizado com um nome infantil.

Mas deixando o felino de lado e tornando a falar do nosso pulguento. Quando ele percebe, enfim, que o gato já escafedeu há horas, então pode ir girar de novo dentro da casinha, procurando a posição menos desconfortável para deitar e tirar uma pestana. Ou melhor, poderia…

O mala da vez é seu próprio dono que, assobiando, vem trazendo a coleirinha para levar o infeliz para dar uma voltinha na rua e mijar nos postes e pneus de carros dos visinhos. Mas quem disse que o bicho reclama? Vai todo sorrisos se expor ao ridículo, orgulhoso do dono ingrato que tem. Não é à toa que cachorro é conhecido como o melhor amigo do homem. Agüenta cada coisa. Vida de cachorro é dura, tem que ter uma paciência sem fim. Vira-lata não tem sossego.

Chegar em casa começa tudo de novo, mas o cão sabe que qualquer dia vai se vingar. Qualquer dia desses, aquele gato preto não escapa e então, quando isso acontecer, vai ser a vez do saco de pulgas levar uma sova por ter esculhambado com o gato do vizinho.

Vida de cachorro, é fogo!

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